sábado, 10 de maio de 2008

“O PORRE DO BAIXINHO”

Todo porre homérico vira lenda. Toda bebedeira que termina apenas em vômitos e situações pitorescas, se transforma em piada. Toda vez que alguém, a quem não se está acostumado, aparece do nada, no mais completo e patético estado de embriagues, vira herói sátiro dos amigos.
Quando alguém resolve agregar tudo isso num porre só, acaba virando tema de crônica se se tem um amigo escritor.
Não ouve em nossa “turma” quem não tenha amarrado um porre “daqueles”! Alguns se tornaram lendários como aquele do Gui que teve como coadjuvante o seu cunhado, que querendo ajudar, pingou limão na orelha do coitado dizendo que ajuda a curar bebedeira.
Ou aquele em que o Pavão, na volta para casa, bateu de frente com um tapume, caiu num jardim, levou duas horas para percorrer um percurso de 15 minutos, mas não vomitou! Deixou para fazer isso em casa, assim que avistou o corredor.
Houve gente que bebeu tanto que seus atos nem assustavam mais como o Tchelão, o doutrinador.
Mas nunca houve um porre como o do Baixinho!

Esse cidadão, um dos irmãos que Deus me deu o direito de escolher, era conhecido, entre tantos apelidos, pela alcunha de Baixinho dados seus atributos físicos.
O Baixinho sempre foi, e ainda o é, aquele estereótipo de cidadão de caráter irretocável!
Religioso, trabalhador, muito bem educado, culto, fiel, e às vezes até “Caxias”. Afinal, que tipo de funcionário público levaria para o trabalho o seu próprio computador para facilitar o andamento do laboro?
Assim como qualquer garoto em plena fase de descobertas, ele também bebia com a moçada, mas como era de seu perfil, moderadamente. Ficava “alto” , nunca bêbado.
Até então ele era aquela figura que ajudava todo mundo a voltar para casa. Depois que entregava os bebaças aos seus respectivos pais, ele voltava para a sua casa. Enfim, o genro que toda sogra sonhou.
Até que um dia...

Era uma noite de Sábado dos saudosos anos 80. Os Titãs, sucesso absoluto do momento, iam tocar na Danceteria Shock e nós não podíamos ficar de fora.
Enquanto eu fazia às vezes de bom namorado, a turma toda se reuniu para se concentrar na casa do Gui. Dali sairiam rumo ao show.
Como só eu namorava naquela época, combinei de encontrá-los na danceteria assim que deixasse a Hellen em casa.
Quando cheguei em frente à porta da casa de espetáculos, percebi que o volume de pessoas era enorme e dei graças a Deus por ter comprado o ingresso com antecedência.
Com tanta gente a minha volta ficava difícil de saber onde estava a “corja”. De repente senti um cheiro de lança perfume e tal qual o Pica Pau fazia em seus desenhos animados fui guiado pelo seu odor característico.
Não deu outra! Achei a “horda”.
Todo mundo estava “chapado”, sem exceção. Claro, apenas eu estava normal.
Como parte de nosso ritual peculiar de amizade, mandei um a um “tomarem no cu” (esse era nosso cumprimento cordial), mas senti a falta de alguém, o Baixinho.
Quando o Batuta me disse que o infeliz estava no hospital achei engraçado e perguntei se ele tinha ido ao bar ou se estava tirando água do joelho. De novo o Ba respondeu que ele estava internado no hospital em coma alcóolico.
Incrédulo, perguntei ao Gui se era verdade e ele se rachando de rir, disse que sim, mas que depois contava a história já que o show estava por começar.
A partir daí a lenda, contestada em partes pelo Baixinho, diz o seguinte:

Era uma vez um menino que não sabia beber...
Durante a concentração para o show, na casa do Gui, foram servidos diversos drink´s, tais com: vodka com Fanta, vodka com guaraná, vodka com vodka, St. Remy, cachaça e cerveja.
Consta que nosso herói “matava” tudo o que lhe ofereciam, e como ele não estava muito acostumado a extravagâncias, não demorou quase nada para que o efeito do álcool lhe subisse à cabeça.
Da casa do Gui eles foram à praça dar uma olhada (?) no movimento. E provavelmente viram tudo girando.
O pessoal começou a perceber que ele não estava bem quando ele pediu, apenas com o sinal da mão para que o Ronnie desse licença para encostar-se no muro. Seria absolutamente normal, se ele não tivesse usado a mão por falta de voz. O coitado mal conseguia balbuciar seu nome...
À medida que o tempo ia passando o álcool ia deixando o Baixinho num estado cada vez mais deplorável, e quando a turma resolveu descer até a danceteria, ele o fez com o auxílio de um ,ou mais, ombro amigo.
A Shock ficava em frente ao Terminal Rodoviário de Amparo e antes de invadirem o recinto, decidiram usar os sanitários da rodoviária já prevendo o tumulto que estava dentro da casa.
Mais bêbado que um gambá, o pequeno manguaceiro começou a cair pelo chão. Imaginem como ficou a roupa do bebaça! Chão de banheiro já não é saudável, em uma rodoviária então...
Vendo, ou tentando enxergar o problema do amigo já que todos estavam mamados, o Batuta pediu para que o Ronnie enfiasse o dedo na garganta do Baixinho para que ele vomitasse, como se isso fosse melhorar.
Esse, por sua vez, se negou terminantemente a colocar sua mão na boca do amigo alcoólatra. Foi preciso certa persuasão por parte do Ba para que o Ronnie o obedecesse. E isso nem foi tão difícil, já que um era magro com 1,60 M de altura e o outro pesava mais de 100 kg e media quase 1,80 M.
Não coordenando muito bem as idéias ele optou por colocar o dedo do próprio Baixinho na garganta do mesmo. Como esse estava praticamente desmaiado ficou muito difícil introduzir um só dedo em sua boca. Assim sendo o Ronnie tentava enfiar a mão inteira.
Alguém, num espasmo de lucidez, resolveu que era hora de encaminhá-lo ao hospital e isso se deu da forma mais discreta possível: de carona com uma viatura da polícia!
Lá chegando ele foi medicado e dizem, vomitou até as tripas! Ao invés de usarem o telefone, o resto dos bebaças resolveram dar a notícia pessoalmente para os pais do Baixinho.
Para não assustarem demais(?) os coroas, foram escolhidos dois representantes que estavam um pouco melhor: O Gui e o Pavão! Justamente dois dos que mais bebiam...
Não se sabe como, mas eles conseguiram subir a ladeira que levava até a casa do Pequeno pudim de cana e antes de tocarem a campainha ficaram lado a lado em posição de quem faz de conta que não está bêbado.
Quando o pai do manguaça deu de cara com os dois pendendo feito bonecos de posto de gasolina, ele já imaginou do que se tratava.
- “Obaaa...o Baixinho num tá bão... tá lá no hossshhpital...” – leia-se com sotaque de quem bebeu muito
- “Vocês drogaram meu filho”! – gritava a mãe desesperada

Os quatro subiram no carro do pai do cachaceiro e foram rápido para o Hospital e como bêbado perde a noção do que faz, em meio ao desespero da mãe e aos risos do pai, o Gui teve a petulância de pedir para que o rádio fosse ligado. Só para eles irem curtindo um som até o hospital (?).
Lá chegando, enquanto a mãe pedia encarecidamente para que o nome de seu rebento não saísse na coluna policial, o resto da “corja” tentava, em vão, explicar o ocorrido para o pobre do pai.
E para não chegarem atrasados ao show, a turma toda pediu carona para os policiais que voltariam para lá também. O pior é que eles aceitaram dar a carona! Imaginem que glória não foi chegar a danceteria no carro da polícia!

No dia seguinte, pela manhã, liguei na casa do pequeno manguaceiro para saber como ele estava. E estava tão bem que já tinha saído para jogar futebol com a galera. Quem atendeu foi sua mãe que me segurou no telefone por longo vinte minutos. Confortei a pobre senhora dizendo que aquilo foi um ato isolado, que seu filho era o mais comportado de todos, etc. Mas a essa altura o estrago já estava feito...
Não há reunião entre amigos em que esse caso não seja relembrado hoje em dia. Para desespero do Baixinho, sempre que conhecemos alguém que não ouviu a história, relembramos o caso mais uma vez para que fique bem claro que ele foi o único que tomou glicose na veia!
Nunca houve um porre igual ao do Baixinho...

“O PRIMEIRO PORNÔ A GENTE NUNCA ESQUECE”

Eu sei... Éramos todos uns pequenos vagabundos que passavam as tardes procurando o que fazer, e quando encontrávamos era sempre algo relacionado à diversão.
Estava quente demais para jogar futebol na quadra do Liceu, já estávamos de saco cheio de jogar vídeo game Atari na casa do Baixinho e como ninguém tinha namorada estávamos literalmente coçando o saco em grupo.
O vídeo cassete ainda era um artigo de luxo, pouca gente tinha um. Como sempre o pai do Baixinho tinha.
A bem da verdade servia mais para gravar filmes da TV do que para reproduzir fitas alugadas, pois, como todo fim de mundo que se preze, nossa cidade só tinha uma única locadora. Locadora não, uma loja de eletrônicos que por um acaso tinha lá umas 20 fitas VHS para locar.
Dentre essas fitas havia uma muito especial. E o Baixinho demorou um tempo para descobrir. Aliás, descobrimos todos juntos: eu, ele, o Pavão e o Netinho.
Fomos lá só para ver se havia algum filme novo e o Kleber, filho do dono e nosso chegado, deu o toque que aquela última fita da estante era de sacanagem.
Como nenhum de nós sabia o que era um filme de sacanagem de verdade, nem nos empolgamos demais.
Estávamos acostumados a ficar até de madrugada colados na tela da televisão esperando, algumas vezes em vão, para ver, quando muito, um peitinho ou uma bunda no programa “Sala Especial” exibido pela TV Record as sextas à noite. As chamadas nos informavam que o filme exibido começaria às 23 horas, mas invariavelmente isso só acontecia lá pela uma da madrugada.
Nesse programa eram exibidos todo o lixo do cinema nacional. Filmes de quinta categoria que só serviam para atiçar nosso tesão adolescente e mais nada. Culturalmente foi tão significante quanto às propagandas comerciais da época.
Com um pouco de sorte podia-se dormir sonhando com meio seio da Wilsa Carla ou um terço de bunda da Matilde Mastrangi.
Quando aparecia uma nudez completa era motivo para debates efusivos na segunda feira durante a aula. Mas isso só acontecia raramente.
Com o consentimento do Baixinho – aí dele se não consentisse – alugamos a fita.
E subimos tão ansiosos a casa dele que nem nos importamos com o sol que Deus mandava. Chegamos ao topo do morro pingando suor, mas ávidos por ver um filminho “do bão”.
O nome na película era: “Desirreé Cousteau”
Desirré era uma mexicana que protagonizava todas as cenas do filme. Os parceiros e parceiras se alternavam, mas ela estava em todas!
Mal acostumados, imaginamos que iria ser uma sessão um pouco mais apimentada que os filmes da “Sala Especial”, mas estávamos enganados...
A película começa com nossa estrela indo fazer uma entrevista com um importante político. Bem a propósito da profissão o larápio a recebeu à beira de sua piscina, de sunga.
Para encurtar a história ele “jantou” Desirré ali mesmo. E para nossa surpresa e deslumbramento as cenas foram exibidas sem cortes! O mais puro sexo explícito! Para quem tinha por referência os filmes da “Sala Especial...”.
Foi automático: assim que a primeira cena de sexo rolou cada um de nós puxou uma almofada para seu próprio colo para esconder nossas pequenas protuberâncias.
A audiência não piscava, não respirava, não falava e nem olhava para os lados!
Assim que a primeira cena terminou o Baixinho decretou: - “O uso do sanitário está terminantemente proibido”!
Ele temia que qualquer um de nós se levantasse no meio da exibição para “externar em seu sanitário tudo aquilo que sentíamos naquele momento mágico”.
E não foi fácil suprimir nossos mais profundos sentimentos!
Desirreé ainda protagonizou cenas em que era vendedora de cosméticos, secretária executiva e tudo mais. E a cada cena nossos testículos doíam mais. Para quem não os têm é bom saber que quanto mais o homem reprime seus desejos mais os testículos doem. Portanto tenham pena de nós!
O filme acabou e a única coisa que nos passava pela cabeça era ir o mais rápido possível para nossas respectivas casas e nossos respectivos banheiros.
Porém o saco do Netinho estava doendo mais do que qualquer outro! E ele implorou para o Baixinho deixá-lo usar o banheiro. Esse, por sua vez, fez o que pode para persuadi-lo a mudar de idéia. Mas a lamentação do rapaz comovia até a mim e ao Pavão que passamos a pedir por nosso amigo.
Segundo o Netinho, sua bexiga estava estourando. Nosso anfitrião aconselhou-o a fazer na rua mesmo, mas de tanto insistir o Baixinho cedeu. Mas ficou ao lado da porta fazendo pressão psicológica para impedir que “algo” acontecesse.
Em questão de minuto ouviu-se o barulho da descarga e a porta se abriu. Nem bem o Netinho saiu do aposento seu algoz já o havia invadido. E fez uma análise minuciosa das bordas do vaso para encontrar alguma prova “branca e gosmenta” do crime.
Aliviado, o Baixinho nos encaminhou até a porta e provavelmente deve ter voltado para assistir, sozinho, àquele épico da sétima arte.
Quando saímos do “Centro Cultural” olhamos seriamente para a face do Netinho que sorriu entregando o jogo. Não foi preciso sequer questioná-lo a respeito do que ele havia feito no banheiro. Descemos a ladeira às gargalhadas.
Nosso amigo aliviado nem tinha mais tanta pressa. Eu e o Pavão sim.
Eu morava próximo à casa do baixinho e desci tirando sarro do Pavão. Mas para a minha decepção não havia ninguém em casa e como não costumava andar com chaves no bolso tive que subir até a loja de meu pai para apanhá-las.
Foi a vez do Pavão e o Netinho me zoarem. E como zoaram.
No caminho aconteceu algo que nos fez acelerar ainda mais o passo.
Bem na porta de uma galeria havia uma garota de pele morena, queimada de sol com o braço esquerdo apoiado no pilar do portão. Não seria nada de mais se ela não estivesse usando uma camisa larga e “sem sutiã”!
Àquela altura dos acontecimentos nós já estávamos babando verde e tudo o que não precisávamos era de mais um estímulo - e que estimulo - como aquele.
Apenas nos entreolhamos. Nem precisou comentários.
Cada qual em seu banheiro homenageou Desirreé a sua maneira. Homenagens essas muito semelhantes, aliás.
Uma semana depois voltamos à locadora para alugar a fita mais uma vez. Ato esse que se repetiu quatro vezes no total, até que uma nova locadora fosse aberta e novos títulos fossem disponibilizados.
O “Centro Cultural do Baixinho” virou nosso ponto de encontro semanal. Primeiro assistíamos a uma comédia para despistar a mãe dele, depois um pornozinho básico.
O pai do Baixinho sempre gostou de fazer cópias dos vídeos que alugava. Não para re-locar, mas para montar sua própria videoteca. Em cada fita ela gravava três ou quatro filmes dependendo do tamanho.
E como todo homem ele também gostava do gênero que nós mais amávamos.
As fitas ficavam escondidas em locais estratégicos e quando nossos pais também compraram um vídeo cassete era comum dar um passeio no “Centro Cultural” para emprestar uma meia dúzia de fitas. Quase sempre pornográficas. Multiplique seis fitas por três filmes em cada uma!
Cansei de assistir fitas de sacanagem, mas nenhuma é tão viva em minha memória como as aventuras de Desirreé Cousteau.
Meu braço dói até hoje...

“ONE NIGHT IN RIO”

Eu tinha apenas 23 anos de idade e nunca havia passado uma noite tão eletrizante quanto aquela. Sempre ouvi histórias dos meus amigos universitários contando as encrencas em que eles se metiam nas noites em que visitavam os puteiros.
Oficialmente eu não estava no Rio para visitar um puteiro. Estava lá para curtir o bom e velho rock´n roll que rolava no Maracanã por ocasião do Rock in Rio 2, mas como não dava para assistir a todos os shows, entre um dia e outro precisávamos arrumar algo de bom para se fazer.
A Guerra do Golfo começara praticamente junto com os primeiros acordes do festival e aquela altura já não era divertido assistir a guerra ao vivo na tv.
Meu companheiro de viagem era o Vintão, a lenda!
Estávamos os dois curtindo nossas férias na cidade maravilhosa embalados pelo rock do Gun´s and Roses, sem nos preocupar em saber que dia da semana era. Quem tinha essa preocupação era o Pavão, que teve arrumar um fim de semana para poder se juntar a nós. E como ele só poderia sair de Amparo, na Sexta-feira à tarde, seu horário de chegada seria o pior possível: 5 da manhã!
E como ele não fazia a menor idéia de como chegar ao apartamento do meu tio Celinho, eu e “a Lenda” nos comprometemos a esperá-lo na porta do edifício.
E o que fazer para se manter acordado até de madrugada? Se fossemos dois coroas provavelmente dormiríamos e colocaríamos o rádio relógio para despertar dez minutos antes. Acordaríamos de mau humor e ainda correríamos o risco de perder a hora.
Como éramos dois jovens gozando do final da adolescência preferimos cair na noite e só voltar para casa quando estivesse perto das 5 da matina!
Aí começa a história de verdade...
Naquela noite estava rolando a abertura do festival e a única coisa que nos agradava ali era o show do Joe Cocker. Mas para assistir a essa lenda viva do rock teríamos que aturar o chato do Prince! Então pedimos umas dicas para meu tio que nos aconselhou esquecer um pouco as raízes anglas saxônias do rock para mergulharmos nas raízes afro brasileiras do samba.
Era janeiro, véspera de carnaval, e as quadras das escolas de samba já estavam fervendo. Optamos por conhecer a quadra da Estácio de Sá.
Como nossas raízes “ítalo brasileiras” sempre falam mais forte fomos vestidos como dois sambistas devem ser: calça jeans, tênis e camisa preta, só faltaram as guitarras!
Quando pegamos o busão já eram bem mais do que 21 horas e resolvemos dar uma parada em Ipanema para aquele choppinho que é de lei! Tempo era o que não nos faltava.
Nessa época havia um chopperia que era considerada o point do lugar, e como dois caipiras metidos à besta que éramos, não pensamos duas vezes: “É pra lá que vamos!”
Claro que quando chegamos a fila para entrar era maior que o número de pessoas dentro da casa, e tivemos que esperar. Mas não esperamos muito. Nem eu, nem ele estávamos dispostos a passar duas horas em pé numa fila com tanto bar periférico dando sopa.
Escolhemos a dedo um que se aproximasse daquilo que estávamos acostumados a freqüentar em terras caipirenses. Alguma coisa assim, mais exclusiva, mais discreta.
Encontramos um de onde tínhamos uma visão panorâmica de tudo o que estava rolando na chopperia da moda. Como dizia o Vintão:
- “Daqui vai dá até pra azará umas gatinha...” – favor pronunciar o “r” do azará de forma bem arrastada, como manda o sotaque caipira. E o gatinha sem o “s” no final.

Porém só nós azarávamos as “gatinha”. As “gatinha” nos olhavam com um ar meio “blasé”. Havia algo de errado... E só descobriríamos o que na manhã seguinte.
Sentamos confortavelmente em uma mesa perto da porta, bem a vista de todos que passavam.
O lugar era até aconchegante, mas não havia muitos clientes, tampouco as “gatinha” que o Vintão tanto queria “azará”.
Curtimos nosso choppinho com uma porção de manjubinha e ainda bridamos a nossa amizade e às férias que estavam só começando. Mas “gatinha que é bom... nada.
No dia seguinte, quando contamos essa história para meu tio, ele reagiu como um bom italiano inconformado. Com aquele inconfundível tapa em sua própria testa, que só os italianos de sangue sabem dar ele vociferou:
- “ Puta que o pariu, boy!!! Vocês foram num barzinho GLS!!! (“boy “era
como meu tio me chamava)

Estava explicado o porquê dos olhares desconfiados das “gatinha”! E porque que naquele bar pouco se viam casais e sim pares! Ou casais, sei lá...
Nosso filme não estava queimado, estava torrado! Passamos os outros dez dias sem pisar em Ipanema! Pelo menos não parávamos por lá durante as caminhadas no calçadão...
Mas a noite é uma criança... – alguém já disse isso.
Não contentes em queimar nosso filme em Ipanema, queimamos também em Copacabana!
Durante nosso “affair” involuntário em Ipanema, o Vitão propôs que ao invés de samba, terminássemos a noite numa danceteria que ele conheceu numa outra ocasião em que esteve no Rio.
Topei de primeira! Era mais a minha cara.
A danceteria supra citada foi muito badalada num passado, então, não tão distante. Naquele exato período de tempo ela já estava bem decadente, mas nem ele, muito menos eu, tínhamos idéia disso.
Para mim tudo era novidade, tudo festa! Entramos esbanjando alegria, mas ela não duraria muito tempo.
Nossa primeira decepção foi descobrir que ali havia a maior concentração de argentinos por metro quadrado, fora da Argentina. Era gringo no bar, na pista, dançando e cantando em cima do palco... Sentimo-nos dois estrangeiros em plena terra tupiniquim!
O preço que pagamos de uma lata de cerveja dava para comprar um litro de vodka! De qualidade duvidosa, mas que dava, isso dava...
Paramos na beira da pista para ver “qual era” e foi aí que a coisa começou a ficar feia.
O Vintão era um solteiro totalmente galinha e descomprometido e eu, já noivo, procurava manter-me fiel a minha amada, o que não significava ficar trancado em casa.
O som era extremamente alto, só perdia para os argentinos bêbados que insistiam em cantar em uníssono, alguma coisa que parecia ser um grito de guerra do Boca Juniors! O local era realmente apropriado para isso...
Ensaiamos timidamente algo que se pode chamar de qualquer coisa, menos um passo de dança. Acostumado às baladas, Vintão já caiu na pista acompanhado de uma “mocinha” que elegantemente trajava um blaser azul sanatório com camisa branca por baixo. Eu, acostumado a ouvir Iron Maiden e Sepultura me sentia literalmente em outro planeta.
Às vezes o Vintão parava para conversar comigo e numa dessas ele propôs que começássemos a tirar onda com ela. Ele sugeriu que déssemos uma de estrangeiro, e quando me questionou de que país seríamos a primeira coisa que me veio a mente foi Luxemburgo! Mas falei achando que ele fosse levar na brincadeira, coisa que ele não fez.
Fiquei ali, como quem não quer nada, chacoalhando o corpo no ritmo da batida que saía dos alto falantes.
Quando me dei conta o Vintão já estava agarrando a baixinha por trás. Seu beiço caipira chupava o pescoço da infeliz enquanto suas mãos estavam dentro dos bolsos da calça dela.
Pude ouvir o safado exercitando seu “embromês” e quase me contorci de vontade de rir.
- “Você muito bonita!” – disse ele num português com sotaque de gringo
- “No... You que é lindo!” – respondeu a pobre donzela.

Foi então que notei algo que me deixou intrigado. A garota tinha um broche
pendurado na camisa com o número 113 escrito em números bem grandes.
Achei aquilo estranho e passei a reparar que ela não era a única do lugar com um enfeite tão peculiar.
Chamei o Vintão num canto e mostrei a ele minha nova descoberta. Ambos chegamos a mesma conclusão: a danceteria tinha se transformado num puteiro!
Enquanto conversávamos a “acompanhante” de meu amiguinho foi buscar uma companhia para mim. Só que àquela altura do campeonato eu e o Vitão já estávamos bolando um plano para sumir dali.
Imagina se ela descobre que nós dois não tínhamos nada de gringos e sim dois caipiras que estavam mais “duros que pau de noivo”? O cafetão ia desovar nossa carcaça lá em Jacarepaguá!
Vintão me pediu mais uns minutos só para tirar mais uma casquinha e depois dar um fora na “perversa”, como ele chamava as biscates.
Nesse meio tempo o jogo começou a se voltar contra mim...
A “113” me apresentou sua “amiga” duzentos e alguma coisa, não me lembro quanto, que imediatamente me puxou para dançar. Eu devia me sentir bem, não fosse pelas minhas pernas que começaram a tremer.
Se o Vintão que era gerente de banco estava duro, imagina eu?! Com certeza eu ia apanhar dobrado!
Tive a infeliz idéia de me negar a dançar, mas ela insistiu. Disse em inglês que não gostava daquela música e ainda assim ela puxava meu braço com um sorriso “biscatal” que me dava vontade de rir.
Acuado, lancei mão do meu plano “C”. Aqueles que a gente só usa em caso de desespero: em um português quase constrangedor lhe pedi desculpas e sorri como quem diz “sou gay”.
Maldita foi à hora que tomei essa atitude!
A duzentos e alguma coisa entendeu o recado e saiu de fininho. Quando já estava me sentindo aliviado a desgraçada me aparece de novo. Dessa vez acompanhada de um rapaz que não me sai da memória até hoje!
Era um sujeito franzino, mais ou menos da minha altura (1,78 metro), usando uma bândana com o símbolo pirata, e um cavanhaque bem ao estilo amante latino. Ele me olhou como quem diz “me come” e deu aquela piscadela básica.
Fiquei estático, pensando se chorava ou dava um soco naquele infeliz!
Quando meu “amante latino” me estendeu a mão me virei para o Vitão e em bom português gritei:
- “Não sei quanto a você, mas eu tô indo embora dessa merda!” – e saí em direção à primeira porta que vi.

Sem entender muito bem o que acontecia, meu amigo me segurou pelo braço e pediu mais um minuto que evidentemente neguei. Ele se voltou a “113” e disse que ia ao banheiro.
Claro que ela sabia que nós estávamos indo embora, e num tom entre o histérico e o agressivo vociferava “no, no, no!”, sem soltar meu amigo.
Assim que ele conseguiu se soltar das garras da “perversa” tomamos o rumo de uma escada que dava para a saída. E foi dessa escada que vislumbrei a cena mais aterrorizante de minha vida.
Após um breve papo com a “113”, um gorila de dois metros de altura se dirigia em nossa direção a passos dinossáuricos. Pelo olhar do garoto ele devia estar “cheio de amor pra dar”, mas eu não tive vontade de parar para conferir.
Saímos da danceteria como um míssil Scud, na época o armamento da moda.
Miramos a direção do Forte de Copacabana e corremos quase sem olhar para trás. E devemos ter corrido muito mesmo, pois na única vez que tive coragem de olhar para trás vi nosso algoz bem longe! Mas ainda correndo em nossa direção.
Foi então que Deus colocou um ônibus com destino ao Leblon em nosso caminho. Subimos no carro sem que ele parasse e ainda deu tempo de ver um grandalhão de terno parando de correr. Senti que minha mãe estava sendo lembrada naquele exato instante...
Desci do ônibus e ainda dei uma olhada desconfiada ao meu redor para me certificar de que realmente estava tudo bem.
Olhei para a cara do Vintão que, branco de medo, me deu um sorriso. Começamos a rir descontroladamente no meio da rua e só paramos quando chegamos no saguão do edifício. Subimos tomar uma água e limpar as calças borradas e descemos de novo para esperar por longas duas horas a chegada do Pavão.
Cochilamos no saguão e de dez em dez minutos, um de nós disparava uma risada incontida. Acho que era uma espécie de catarse, pois fazia bem e acalmava.
Quando o terceiro caipira chegou, uma das primeiras coisas que eles nos perguntou foi a respeito da noitada:
- “E aí? Como foi? Pegaram alguma coisa?”

Rimos tudo de novo e prometemos que na manhã seguinte contaríamos
tudo com riqueza de detalhes.
E isso aconteceu ao lado do meu Tio Célinho, que decepcionado com o sobrinho, jurou negar qualquer outro pedido de estada vindo desse pobre mortal.
Hoje é tudo muito cômico, mas se houve um dia em que vi “a viola em caco”, “a porca torcer o rabo”, “ o bicho pegando”, foi na noite em que o Vintão me apresentou à saudosa “113”...

“TRÊS HOMENS E UM FUSCA”

Ele nunca foi meu, mas era como se fosse. Ele não era só do Pavão, era de nós três. Meu e do Baixinho também. O Pavão só detinha a guarda, mas ele sabia que, para vendê-lo, precisaria de nossa autorização verbal.
E isso um dia aconteceu...
Ele se foi...
E com ele marcas de uma juventude que insiste em ficar tatuada em nossa retina. É só ver um Fusca da mesma cor que ficamos olhando, esperando por um aceno que nunca vem.
Queria apenas dar mais uma última volta naquele demônio das pistas!
Seu design já mostra o que ele é: um carro com alma! Diferente de todos os outros
Seu pára choques em formato de sorriso dá a mais perfeita expressão de que ele não é apenas um carro. Ele é “o carro”! Nem dá para acreditar que a idéia do pára choques foi do Hitler.
São os vira-latas motorizados! Ninguém fala mal de Fusca. Nem quando quebra.
O “Herbie”, como ficaram conhecidos carinhosamente todos os Fuscas depois do filme da Disney, era aquele amigo pobre, mas simpático, que é convidado a comparecer em todas as festas.
Nós também tínhamos nosso “Herbie”, o filho do Pavão. Um bólido de 1972, 1300, com volante de madeira.
Ele era marrom/coco, mas era um tom de cocô saudável. Nada parecido com aquele cocô de quem comeu algo que não está acostumado. Era um cocô consistente, cintilante!
O garotão chegou ao nosso convívio em março de 1988 e ficou até fevereiro de 1997.
Qual a nossa felicidade quando ele ganhou um adesivo oficial do primeiro “Hollywood Rock”! Era como se nosso menino tivesse feito a sua primeira tatuagem! Seu primeiro adesivo foi uma maçã verde, que o Pavão achou que era legal, mas nós não considerávamos aquilo coisa de macho, assim sendo, ignorávamos.
Dava orgulho passear com ele. Era realmente uma alegria ouvir sua buzina me chamar na porta de casa. Não era uma buzina, era um chamado!
- “Levanta bunda mole!!! Hora de passear!”

Na verdade nós é que o levávamos para passear. Era como se saíssemos
os três para levar o Totó fazer suas necessidades. E o danado não fazia feio não! Intimidava pela postura de pittbull. Era um vira latas com pedigree!
Tinha lá seus defeitos, claro! Mas nada de extraordinário, afinal todo carro, em dia de chuva, molha os pés dos passageiros...
O “Herbie” foi testemunha das nossas loucuras juvenis. Se esse carro falasse... Perdão! Carro não! O “Herbie” não era um carro, era um ser humano!
Era o quarto dos Cavaleiros do Apocalipse! Era nosso mentor espiritual, nosso guru! Ou como diria seu tutor: o dono da porcada!
Quando ele adoecia, os sábados não eram os mesmos. Parecia que alguém estava faltando na turma. Sem ele não tinha a menor graça.
E logo com três meses de convívio, um panaca tentou enrabar o coitado e o mandou para o pronto socorro. Sofremos juntos...
Foi nele que passamos os melhores sábados de nossas vidas. Foi nele que conhecemos os Ramones!
Um dia o Pavão apareceu com uma fita cassete de 60 minutos da Gradiente contendo uma coletânea com as melhores músicas dos Ramones. Gravadas pelo Vitão, que andou sentando no Fusca conosco de vez em quando. Mas o “Herbie” era meio temperamental. E fiel! Só conosco ele se sentia a vontade.
Nossas tardes de sábado eram meio pragmáticas, mas deliciosas. Lá pelas duas o “Herbie” pegava o Pavão, afinal era ele quem dirigia, ou melhor, segurava no volante! O “Herbie” já sabia o caminho sozinho... e tinha vontade própria.
Depois eles passavam me pegar e em seguida o Baixinho. Só então a tarde começava. Ouvíamos o primeiro lado da fita dos Ramones rodando com o “FUCA” pelas ruas do centro. Assim que o lado A terminava parávamos no trailer da Dalila.
Lá trocávamos a fita por qualquer outra. Sempre de rock and roll! A cada mês aparecia uma seleção musical diferente. A minha era sempre preterida, já que eu sempre tive um “gosto porco”, como diria o Baixinho.
Dizia ele que comprar um disco por causa de uma música já não era aceitável, comprar um disco por causa de nenhuma música era incompreensível!
Na verdade eram eles que não conseguiam acompanhar o meu bom gosto musical... Quando eles ouviram Gun´s and Roses pela primeira vez, meu disco já estava furado de tanto ouvir! Quando os introduzi ao universo metálico do Sepultura eles quase tiveram um piripaque! Acho que eu estava à frente do meu tempo e eles não sabiam...
Também... O que esperar de um baixinho que tem a coragem de comprar um disco da Donna Summer?
Passávamos a tarde ouvindo o “Herbie” cantar, afinal, quem cantava era ele, as fitas eram só um “karaôke”!
Ele foi minha segunda bateria! Minha primeira foi o sofá de casa, que eu destrui com as baquetas que improvisava roubando as grades de madeira do berço da Cau, minha irmã.
Com o “Herbie” eu tinha mais respeito. Acompanhava as músicas batendo com as mãos em sua lataria. Se o Carlinhos Brown descobrisse o “Herbie” a música baiana nunca mais seria a mesma!

Naquele tempo eu ainda era fraco para bebidas, e quando exagerava na dose era ele quem carinhosamente me deixava em casa.
Quando tudo corria bem o “Herbie” parecia sorrir com a gente! Só não nos acompanhava na cerveja porque era ele quem ia dirigir, e ele sempre foi um cara responsável.
No final da tarde, lá pelas seis e poucos, ele nos levava embora. Mas não sem antes rolar o lado B da fita dos Ramones!
Como moramos numa cidade pequena, não dá para fazer um percurso variado, então acabávamos passando pelas mesmas ruas uma porção de vezes. Devíamos ser conhecidos pela turma do Fusca marrom/cocô e não pelos nomes.
Era tudo meticulosamente calculado. Quando a fita começava a chegar no fim ele nos levava para ver se o Vitão, a lenda, estava em casa. Mesmo sabendo que já fazia uns dois anos que ele se mudara de lá, era imprescindível passar na casa dele. E esse era o sinal...
Quando isso acontecia e o “Herbie” tocava os primeiros acordes de “Rock´n roll radio”, sabíamos que era hora de ir embora. Cantávamos a plenos pulmões como uma verdadeira celebração de nossa amizade. E acho que era isso mesmo o que acontecia: uma celebração!
Nos conhecemos há mais de trinta anos e desde a adolescência saímos juntos aos sábados à tarde. Mesmo que durante os primeiros anos de nossos casamentos essa rotina tenha sido quebrada, o tempo tratou de consertá-la.

Foi com ele que fizemos nossa maior loucura da juventude! Inspirados em James Dean, resolvemos abusar da sorte e nos aventuramos pelas estradas de terra que leva a Três Pontes. Ao som de um Heavy Metal radical, aceleramos a supersônica velocidade de 60Km/h munidos de duas garrafas de yogurte de morango, de um litro, e uma bandeja de Carolinas com recheio de chocolate. Se um guarda nos pára, acho que teríamos sérios problemas...
E como foi divertido! Nadamos contra a maré! Nada de álcool, nem de velocidade! Nossa adrenalina vinha da felicidade de estarmos juntos, em perfeita harmonia. Uma amizade que só o “Herbie” testemunhou!
E foi o “Herbie” uma das poucas testemunhas do primeiro porre de minha esposa, então namorada. A pequena travou com dois Martinis, uma caipirinha e um copo de chope! Como eu andava a pé, o jeito foi levar a “bebaça” quase carregada para a casa. Mas quem apareceu no meio do caminho para nos dar uma carona?
Acertou quem respondeu: O “Herbie”. Ele estava levando o Pavão e a Paula para passear quando me viu, e percebeu que precisava me ajudar. Era um “Transmimento de pensação”, que só nós, irmãos do carango, saberíamos explicar.

Quem não foi muito fiel a ele foi o Pavão!
Em 90, ele comprou um Uno e encostou o pobre “Herbie”. Um ano depois arrebentaram o Uno e o “Herbie” voltou à posição de titular. Mas o infiel não estava contente... Em 92 surge em sua garagem um Voyage e o preterido Fusca volta ao status de reserva. Era de partir o coração vê-lo estacionado na garagem, todo empoeirado.
O ano de 94 chegou e o Voyage teve que ser vendido também. E quem surge como a Fênix?
Mas a essa altura nosso herói de quatro rodas já estava meio caduco... Como é costume por aqui, o Pavão se casou no civil num dia e no religioso no outro. Pois não é que no dia do casamento civil, às 15h30min horas, o bichinho resolveu não pegar mais! E o casório estava marcado para às 17 horas! Quem ia levar o noivo?
Foi preciso muita psicologia para fazer o menino dar o ar de sua graça. Só com a presença do seu mecânico de família ele aceitou voltar a funcionar! Acho que era ciúmes...
Mas como nada que é bom dura para sempre, um dia o “Herbie” se foi...
Por míseros R$ 900,00, em 1998, ele teve que partir. Mui raramente, fitávamos o bom velhinho pelas ruas, e nosso coração apertava. A única lembrança física que nos restava era o adesivo do “Hollywood Rock” que o Pavão fez questão de retirar. Era uma marca registrada de nós mesmos.
Não sei que fim ele levou, mas sua lembrança ainda vive em nós três. É comum recordarmos dele como um membro da turma. Relembramos das histórias que vivemos juntos e sempre arrumamos uma brecha para incluí-lo no contexto.
Se Deus me concedesse alguns desejos não materiais, um deles certamente seria rever o “Herbie”.
Adoraria refazer o mesmo percurso e ouvir a mesma fita que por tanto tempo fez de nossos sábados uma festa sadia!
O tempo passou, muita coisa mudou, inclusive nós mesmos. Engordamos, perdemos cabelo (menos eu!), casamos, nos separamos (menos eu, de novo). E até ficamos um tempo afastados uns dos outros. Mas ouve uma coisa que não mudou: nossa amizade!
A vida judiou um pouco de nós, como faz com todo mundo. Mas não perdemos aquela doce inocência que permeava nossas tardes de sábado. Ainda saímos, sempre que possível para tomar a cerveja nossa de todo sabadão, mas fica sempre a impressão de falta alguma coisa, ou alguém.
Acho que se entrássemos de novo no mesmo Fusca, e rodássemos ao som da mesma fita, passaríamos um bom tempo em silêncio. O Baixinho não conseguiria falar, o Pavão provavelmente passaria o tempo balançando a cabeça como quem diz: - “Meu Deus...”
E eu, além de anotar todas as reações em meu bloquinho de anotações mental para uma possível crônica, choraria como sempre faço nos momentos em que me sinto emocionado.
Eles ririam de mim, como sempre fizeram. Mas no final, quando o passeio terminasse, e a chave fosse retirada da ignição, terminaríamos os quatro abraçados, como irmãos que somos. E choraríamos juntos, cada um a sua maneira. Eu com lágrimas, o Pavão com o semblante meio assustado, o Baixinho quase tendo um enfarte de tanto se segurar e o “Herbie” tocando pela última vez:
- “THIS IS ROCK´N ROLL RADIO... STAY TO FOR MORE ROCK´N ROLL”

“RUA DE CIMA CONTRA RUA DE BAIXO NA RUA DO MEIO”

Outro dia eu passei em frente a um clube de futebol ”Society” aqui da cidade e vi uma cena que me chocou bastante: um bando de garotos de no máximo dez anos se confrontavam sob as luzes dos refletores halógenos!
Por que isso me chocou?
Simples. Porque essa geração vai morrer sem saber o que é uma pelada de rua! Não falo de nenhuma menina dada que resolveu tirar a roupa na frente de todo mundo. Esse tipo de pelada pornográfica essa garotada já deve estar de saco cheio de ver na internet. Eu falo de um jogo de futebol que não se vê mais nos dias de hoje.
Hoje ainda existem pequenos focos românticos que perpetuam essa cultura sob o novo status de “Street Soccer”. São geralmente vistos em ruas da periferia das cidades ou em uma remota vila dos confins desse Brasil anônimo que existe dentro do próprio Brasil.
“Street Soccer” nada mais é do que nosso antigo e saudoso “Cinco vira, Dez acaba”, jogado no meio da rua, sem goleiro e sem traves, apenas com um par de chinelos Havaianas demarcando o que seriam as balizas ou traves. Também não havia juiz para apitar a peleja, os lances mais polêmicos eram decididos entre os donos dos times, geralmente os meninos mais fortes e briguentos, que costumavam decidir se era pênalti ou não, depois de uma meia dúzia de tapas que ninguém ousava apartar.
Quando alguém anunciava: “amanhã vai ter jogo contra!”, significava que o time de alguma rua rival havia desafiado o outro para uma partida de futebol.
Isso nos deixava animados e ansiosos. Como verdadeiros profissionais, passávamos o restante do dia treinando, o que significava ficar jogando bola o resto do dia, até que o último pai chamasse o filho para dentro de casa. E isso geralmente acontecia por volta das 22 horas. Era só ouvir seu nome em voz alta que a gente sabia que estava na hora de ir para a cama. O único que não ouvia a voz do pai era o Fabian. O Raul, seu pai, costumava dar um assobio tão alto e com uma melodia tão diferenciada que todos já sabiam de quem se tratava. Chorei sua morte aos meus dezoito anos. Era um corintiano arretado esse Raul!

Houve um jogo que me marcou bastante e que guardo na memória com muita saudade.
Eu ainda era muito pequeno, devia ter no máximo uns sete anos de idade, e fazia parte da “Turma do café com leite”.
“Café com leite” era aquele garoto, que não tinha idade para brincar com os grandões, mas como vivíamos em uma democracia infanto juvenil (só entre as crianças, pois entre os adultos o país já vivia a Era Geisel), eles nos deixavam participar da farra. A diferença era que nós não “apitávamos” nada. Era como se não existíssemos para as regras das brincadeiras. Por exemplo: numa brincadeira de pega-pega os grandões tentavam pegar todo mundo, e nós também corríamos deles, mas se alguém nos pegasse não acontecia nada, pois éramos “café com leite”.
No futebol nossos gols também valiam, mas isso raramente acontecia, pois eles nunca passavam a bola para os pirralhos. Ficávamos com as sobras e geralmente tínhamos que passar a bola para um grandão o mais rápido possível sob pena de levar um “croc” na cabeça!
Naquele dia aconteceu da mesma forma. Como o jogo era jogado com dez para cada lado e nosso time estava incompleto, foi preciso apelar para a “turma do café com leite” para completar a escalação.
O time da Rua Carlos Gomes (a rua de cima) iria enfrentar o time da Rua Albino Alves (a rua de baixo) na Rua Antônio Prado (a rua do meio, portanto, campo neutro).
O “point” escolhido foi em frente da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que era o mais iluminado da rua e o que tinha menos casas por perto. Uma das traves ficava em frente à casa do “Seu Tácito” que não ligava muito para o barulho, e a outra, distante uns 25 metros, ficava justamente na frente da casa do “Véio Tomate”. Não me lembro o seu nome, mas ele era aquela figura lendária que quase toda rua tem: o velho chato e rabugento. Vi com os olhos cheios d água ele furar uma bola de plástico que eu cuidava com muito carinho quando, o Charles chutou-a para cima e acabou aterrizando sobre as roseiras do velho.
Impossível esquecer aquela figura grisalha e já bastante enrugada de camiseta de alça branca e cueca samba canção igualmente branca, assassinando minha bola de futebol, no meio da rua. Ele vociferava uns grunhidos que, em termos fonéticos, se aproxima muito de um “pohpohpohpoh!”. Ninguém entendia absolutamente nada, mas pelo tom da gritaria sabíamos que ele não nos amava.
Eu jogava(?) pela Rua Carlos Gomes e fazia a função típica de um “café com leite”, ou seja, nada. Ou melhor, corria atrás da bola com todos os “cafés com leite” do meu time, a uma distância segura dos ponta-pés dos grandões e do lado oposto dos “cafés com leite” do adversário. Ficávamos esperando uma bola espirrada para enfiar o pé na redonda, o que já era uma vitória!
Nosso esquadrão era formado por Valdir (o dono do time); Zé Luís; Zé Antônio; Jão; Charles (recém promovido ao time de cima) e Beto (que era da rua acima da nossa e que não tinha time por falta de quorum).
Completava o time os “Café com leite”: Fabian; Lulli; Renato; Israel; Alexandre; e eu.
Como só dez podiam jogar, os mais pernas de pau ficavam na reserva e entravam e saiam a cada dois gols. No caso, os pernas de pau eram o Alexandre e o Lulli que não gostavam muito de futebol, mas adoravam estar no meio da farra.
Não me lembro da escalação do time da Rua Albino Alves. Os poucos que não me fogem a memória são: Cosmo; Gerson; Bié e o Fábio.

O jogo aconteceu à noite para que todos pudessem estar presentes já que parte estudava de manhã e parte à tarde. Tinha até torcida feminina! No nosso caso a Nadia, a Soraya, a Silmara, a Fernanda e outras que não me lembro.
O jogo começou e os gols foram saindo naturalmente. Aliás, o que não faltava nesses jogos eram gols! Eram muitos e de todo jeito: de placa, de cabeça, de canela, de joelho...
Como sempre, tinham as brigas. A única que me lembro nesse jogo foi do Valdir contra o Cosmo por causa de um escanteio. O resto da peleja era recheada por xingamentos dos mais variados.
A partida foi uma das mais equilibradas que já vi, com os nervos à flor da pele e os gols saindo aos montes. Éramos rivais e isso esquentava ainda mais o clima. Até briga de “café com leite” teve. Não me lembro quem contra quem, só me recordo de ver o Renato subindo para sua casa aos berros.
Quem perdesse ia ter que agüentar a gozação por muito tempo na escola, pois ninguém se atreveria a passar na outra rua depois de um jogo. Fatalmente os derrotados iriam espancar os vencedores por puro despeito. E isso era bem comum de acontecer. A paz só voltava semanas depois. Até o próximo jogo...
A coisa estava pegando fogo, a bola não parava um minuto, já que não havia lateral, só escanteios e tiros de meta. Valia até tabela com a sarjeta. E foi exatamente uma tabela involuntária que decidiu a partida.
O placar estava empatado em nove gols para cada lado e o próximo tento decidiria o futuro daqueles guerreiros heróicos que, de pés descalços, lutavam para não serem as vítimas das gozações da próxima semana. Era comum ver champelas de dedões serem arrancadas ao se chutarem o calçamento. Mesmo assim o jogo não parava, nem o ferido!
O lance derradeiro se deu pela esquerda do gol da casa do “Véio Tomate”. Zé Luís avançou com a bola e quando estava quase de frente com a meta adversária foi interpelado pelo Fábio que deu um chutão para o lado. A bola bateu com tanta força na sarjeta, que voltou para a boca do gol vazio. Para que ela entrasse era preciso que alguém a empurrasse para dentro.
De repente o mundo parou como num filme. De frente para o gol vazio estavam apenas a bola e um “café com leite” da Rua Carlos Gomes. Um menino magricela descalço e sem camisa estava prestes a virar herói. Esse menino franzino e tímido era este que vos relata emocionado esse momento tão sublime que é o gol. Só os homens sabem a importância desse momento. Só tendo sido menino um dia para saber do significado mágico de se decidir uma partida como aquela.
Fazer aquele gol significava ser respeitado por pelo menos alguns dias até mesmo entre os grandões. Significava que se alguém quisesse brigar com ele, teria a proteção da ala mais forte da turma. Significava a possibilidade de estar escalado para o próximo jogo, sem precisar tirar a sorte no “dois ou um”.
Imagine o mundo parado, você de frente para o gol vazio e uma dezena de vozes gritando como que dentro de um cano: “Chuta! Chutaaaa!!!”
E o menino chutou. Com categoria, de peito de pé, como só os meninos do Brasil sabem fazer nessa idade.
Só ouvi os berros de “GOOOOOL” vindo de todos os lados e confesso que senti vontade de chorar. Só não o fiz porque seria um atestado de “bunda mole” naquela época.
Fui carregado nos ombros da galera, enquanto o Valdir e o Cosmo desempatavam a briga que haviam começado durante o jogo.
Tomado por uma alegria indescritível fui um dos últimos a voltar para a casa naquela noite. Contei com euforia para meus pais o feito histórico que acabara de protagonizar e dormi sabendo que o amanhã seria glorioso. Imaginei-me fazendo isso no Morumbi com a camisa do São Paulo, recebendo um passe do Serginho Chulapa!
Dormi o sono dos justos. Feliz por ter entrado para a galeria dos heróis da rua e orgulhoso por poder ter feito um simples gol, que pode parecer banal para alguns, mas que, para quem já jogou uma partida de “cinco vira, dez acaba”, significa a glória suprema. O significado mais romântico do que é jogar futebol.

A propósito, fiquei um mês sem passar pela Rua Albino Alves, com medo de ser espancado.
Muitos dos protagonistas daquele episódio são meus amigos até hoje. Alguns se perderam pela vida sem dar notícia, outros se tornaram engenheiros, professores, teve quem virou radialista, eletricista, e até sócio de puteiro! Nenhum deles virou profissional da bola, isso tenho certeza.
Cheguei a morar durante anos na Albino Alves, mas já não haviam mais essas peladas de rua. Outrora adversários, hoje “aqueles amigos”, que jogavam contra mim e minha turma.
Um dia deixei de ser “café com leite” e joguei “contra”, como titular. Mas não tinha a mesma graça. O bom foi ser um herói “café com leite”. O time da Rua Albino Alves acabou e nossos rivais passaram a ser a turma do Tostão, do largo da Santa Cruz. O dono do time e briguento da vez era o Charles e os “cafés com leite’ mudaram de nome. Um deles, o Rogério, é mecânico de confiança de meu carro.
Quando passo pela Rua Antônio Prado remeto-me àquela noite de glória e me encho de orgulho por dentro.
O futebol nunca mais foi o mesmo depois daquele jogo. Pelo menos para aquele magricela que sonhou um dia em ser centro-avante do São Paulo e hoje, entre um choque elétrico e outro, escreve para ele mesmo, sonhando ver suas histórias materializadas em forma de livro.

Bons tempos aqueles...

"O VELÓRIO DO NONO"

Você se lembra quando foi que a vida lhe apresentou à morte pela primeira vez?
Quando foi que você conheceu o sentimento de perda irreparável de alguém?
Eu me lembro!
Meu primeiro contato oficial com a morte foi quando, chegando da piscina, fui informado que o “Seu Anísio”, o padeiro, havia atropelado o Cyborg.
Cyborg era o nome do meu segundo animal de estimação: um cachorro vira-latas que mal chegou a completar um ano de idade.
Em meados da década de 70, pelo menos aqui por essas bandas, havia poucas padarias. Como a cidade era pequena, menor do que hoje, a distribuição de pães, confeitos e afins era feita pelos padeiros motorizados.
“Seu Anísio” aparecia quase todos os dias no fim da tarde e já chegava fazendo estardalhaço com sua Kombi branca. Mal apontava na ladeira (eu morava numa) e ia logo enfiando a mão na buzina.
Era sempre uma festa quando a Kombi estacionava e abria as suas “portas da esperança”. Atrás do banco do motorista estavam depositados todos os nossos sonhos!
Sim, os sonhos! Além de pão doce com cobertura de creme, havia os irresistíveis sonhos de goiabada! Polvilhados com açúcar de confeiteiro...
Quando meus pais tinham condições eu ganhava um, senão ficava só no sonho mesmo... Sonho do verbo sonhar!
Eu adorava o “Seu Anísio”! Até o fatídico dia em que o Cyborg escapou de casa e foi se enfiar debaixo da Kombi dele. Na hora em que ele deu aquela “rézinha” básica para sair... Era uma vez o Cyborg.
Chorei minha primeira perda não material com todas as lágrimas que foram possíveis e prometi que nunca mais teria um bicho de estimação. Até que apareceram o Chuchu, o Cocó, o Chaninho, o Kiss...
Mas a primeira vez que chorei a perda de um ser humano querido foi quando da inesperada morte do César, o Césão, que nos deixou ao pular de cabeça no Rio Camandocaia. Pelo menos foi isso que nos disseram.
Césão trabalhava para o meu pai na microscópica fábrica de sapatos que ele tinha no porão de casa. Com o tempo passei a vê-lo como um irmão mais velho. Ou até uma referência em termos do que eu queria ser quando crescesse.
Seu velório foi na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na esquina de casa, com missa de corpo presente. Não cheguei a ir ao sepultamento que naquela época era bem desgastante.
Como todo cemitério, o nosso também fica fora do centro da cidade. Só que, diferente de hoje em dia, o corpo era velado na casa do defunto! E de lá saíam todos, “a pé”, até o cemitério! O único que não ia andando era o morto por motivos mais do que óbvios. E o motorista do carro fúnebre, claro.
Carro era coisa de rico e pouca gente tinha. Os poucos que tinham até davam uma carona para a família do defunto não ter que ir debaixo de um sol escaldante, e vestido de preto, até o cemitério.
Lembro-me bem da extensa fila que acompanhou o cortejo do Césão. Era muita gente mesmo! Principalmente jovens, já que ele se foi aos 18 anos.
Mas o velório que mais me marcou até hoje foi o do Nono Luís.
Por sofrimento nada se compara a perda de meu avô Agenor, mas o velório do Nono foi algo de espetacular!
Mas o que pode haver de espetacular num velório? – você deve estar se perguntando.
Nada, não fosse eu descendente de italianos. E da espécie mais desgraçada que se pode haver!
O Nono bateu as botas aos 90 anos de idade, no início dos anos 80.
Eu ainda era um moleque que mal sabia para que servia um pinto, mas me lembro com riqueza de detalhes da “celebração” que foi o velório do velho!
Eu lhes digo isso não porque o Nono não era muito querido, muito pelo contrário! Pô, ele era o Nono, porca miséria! Era o patriarca da família! O dono da porcada! O que mandava prender e soltar! Enfim, o Nono era o “cara”!
Todos gostavam dele. Até meu avô que era seu genro. Se bem que eu nunca os vi abraçados...
A propósito de seu aniversário todos se reuniam na casa da minha avó, que era quem cuidava dele, e diante de uma longa e farta mesa cantavam o “Parabéns” para o Capo.
Luís De Simoni teve oito filhos que tiveram mais uma trempa de filhos que lotavam a casa da Vó Tiana quando dos aniversários de números redondos do Nono, 60, 70, 80 ,90... Nos restantes vinham só os que podiam.
Mas o que fez daquele velório uma ocasião especial?
Simples: a hora do almoço!
Italiano que se presa passa a noite chorando o morto e não arreda pé nem que a vaca tussa! Sair de lá, mesmo que de madrugada, é para as mães de crianças pequenas e para as próprias crianças. Quanto mais velho, mais resistente é “chorador de morto”! Minha avó só levantava da cadeira para ir ao banheiro ou passar a mão na cabeça da defuntada da família e fazer o sinal da cruz.
No velório do Nono, como não poderia deixar de ser, o clima era literalmente de “velório” – redundância a minha.
Nessa época a cidade já possuía o Velório Municipal, que ficava nos fundos de um de nossos hospitais, bem no centro da cidade. Eram duas salas. Dava para dois defuntos, ou mais, dependendo da demanda.
Era uma visão comovente aquela italianada toda chorando e os amigos consolando com aquela já manjada frase de velório: – “Ele descansou...”.
Até que de repente minha avó lembrou-se que “saco vazio não pára de pé”, como ela se referia a hora da bóia.
Com seu jeito Mussolínico de ser decretou: - “Célia! Passa no mercado e compra 3 quilos de bife, 2 quilos de lingüiça pura, 1 quilo de cebola, 3 quilos de batata, 5 quilos de arroz, 2 quilos de feijão, 2 quilos de macarrão, uns 4 pé de “arface”, e bastante tomate. Faz o “armoço” dessa gente e pede pro seu marido ajudá!”.
Célia é o nome de minha mãe e o marido, evidentemente, meu pai.
Mamãe trabalhou tal qual uma camela para preparar esse cardápio básico para a italianada, e como ninguém ficou sabendo que ela estava se esvaindo na cozinha, teve que fazer tudo sozinha, ou melhor, com meu pai, ou melhor, quase sozinha já que naquela época ele não manjava nada de cozinha.
E toda essa comida foi preparada em dois fogões, um normal e outro “a lenha”!
Quando tudo estava pronto minha mãe voltou para o velório e comunicou que a comida estava na mesa. Na mesa da casa de minha avó.
Só que a máfia não queria arredar pé do lugar e a solução encontrada por minha avó foi a seguinte: trazer tudo para o velório e manjar por lá mesmo!
E lá foi a Célia de novo para a cozinha! Depois de tudo devidamente acondicionado em formas de metal (aquelas de bolo), o rango foi dar um passeio na Kombi de alguém que não me lembro quem.
A visão de um bando de mulher carregando formas e mais formas de comida para dentro de um velório é, no mínimo, grotesca. Agora imaginem o cheiro da comida que passava atiçando a gula de quem havia passado à noite em claro!
Aqueles que se diziam sem fome ou sem vontade de ir até a casa da Vó Tiana para almoçar foram os primeiros a partir para a mesa! Mas, que mesa?
Havia até uma cozinha onde se costuma preparar um café, mas mesa propriamente dita...
Estamos numa sala onde se vela um corpo recém desalojado de alma! Onde conseguir uma mesa? Ainda mais para tanta gente!
O jeito foi comer em pé mesmo...
Por falta de pratos e talheres para todos foi organizado um sistema de revezamento: primeiro a velharada e as crianças, depois as mulheres e por último os homens.
Aquilo era uma visão surrealista! Houve um momento em que ninguém mais dava moral para o Nono! O povo queria era encher a pança!
Gente comendo de pé, gente sentada no chão com o prato no colo, criança filando mistura dos tios, gente do lado de fora com o prato na mão comendo tudo na base da garfada e cortando carne na dentada! Enfim, só faltou usarem a barriga do Nono como mesa!
Tudo regado a Tubaína e Sodinha! Faltou o vinho.
Eu tinha a impressão que a qualquer minuto o véio ia levantar e gritar:
- “Porca miséria! Ma que família do catso! Que farta de respeito co morto! Vê se pelo menos me faz um prato seus maledeto”.
Meu tio Célio, então um playboy, ao chegar à ceia, desculpe, ao velório quase enfartou! Da porta já sentiu o cheiro de lingüiça acebolada. Teve um chilique que só foi encerrado porque já não havia mais nada o que fazer. Pediu que pelo menos passassem um café bem forte para ver se encobria o cheiro da lingüiça. Impossível...
Por sorte, ou azar, sei lá, o Nono era o único morto do dia. Se houvesse outro na sala ao lado com certeza minha avó iria convidar os vizinhos para participar da comilança! E ia ser uma confraternização geral com todo mundo se abraçando, cantando “Che viva la bella polenta”, prometendo filho para o outro apadrinhar...
Graças ao bom Deus nessa época carro já era comum pelas bandas de cá porque o Nono foi sepultado na cidade vizinha, Serra Negra. Imagina se fosse uma década antes! Todo mundo a pé, debaixo de um puta sol e a pança cheia de lingüiça e macarrão! Iam ser um velório atrás do outro! Italiano morrendo de congestão no meio do caminho! E tome velório! Tome lingüiça!
No cemitério a ala masculina sofreu...
O Nono era um homem alto e forte. Não era gordo, mas magro é que não era.
Como os carrinhos de transportar defunto ainda não existiam por aqui, todo e qualquer morto era levado no braço até a sepultura. Imaginem só a cena daqueles italianinhos de bucho cheio, debaixo de sol e carregando um caixão que devia pesar mais de 100 quilos!
E por mais que eles se revezassem na alça do caixão eu tinha a impressão que eles iam explodir, pois estavam vermelhos e suados com aquela cara típica de quem não está mais agüentando.
E carregar o caixão sempre foi uma honraria permitida somente aos membros mais ilustres da família! Lembro que me imaginei ali no lugar daqueles homens fortes, importantes no contexto familiar, tendo a honra de transportar um ente querido. Mas meu dia chegaria. Uma das alças do caixão de minha avó Sebastiana a mim pertenceu.
E por mais respeito que eu tivesse por ela confesso que excomunguei aquelas malditas banhas da minha gorda vovó. Lembrei-me do sonho que tive naquele mesmo cemitério mais de uma década antes. Senti-me ridículo.
A propósito do velório de minha avó, a “festa” já não era tão animada.
Noventa por cento da italianada já estava enterrada quando ela se foi. E sobrou para a Tia Cida o decreto de preparar o rango da galera.
Só que dessa vez o cardápio estava bem pobre:
- “Roberto! Vá ao mercado e compra 1 quilo de mortadela, 1 quilo de presunto, 1 quilo de mussarela, um pote de margarina, 2 quilo de café e 30 pãozinho!”.
Demos azar porque minha avó morreu depois do almoço e só iria ser sepultada no outro dia pela manhã. Senão...
E dessa vez minha avó teve que dividir a sala com outro morto. Pelo menos quem passava do lado de fora achava que a família era numerosa.
Num determinado momento A Tia Cida pediu para que minha mãe convidasse a outra família para tomar um cafezinho na cozinha.
Como o Velório Municipal era novo (já devidamente instalado ao lado do cemitério) e a municipalidade é que bancava tudo, a família do morto agregado achou que era tudo por conta da prefeitura e limpou a mesa!
Minha avó deve ter rolado umas duas vezes no caixão de tanta raiva! Quando a filha do defunto viu aquela pequena ceia em cima da mesa botou a cabeça para o lado de fora e chamou o resto do seu povo anunciando que tinha até presunto e que podia comer a vontade! Lembrei do velório do Nono nessa hora.
Quando eu morrer quero que meu velório siga as tradições da família. Mas com todo o conforto da vida moderna.
Quero que contratem um Buffet! De entrada quero que seja servido canoinhas de maionese e “batatinha cozida de casamento”. E para beber uma caipirinha bem fraquinha para dar uma animada no pessoal.
O prato principal tem que ser massa! Nada de comidinha light! Muito carboidrato para a rapaziada ficar cheia de energia já que não quero saber de carrinho elétrico carregando meu corpinho. Vai ser a moda antiga: no braço!
Para beber sim, uma Coca Light e Caipiroska para meus amigos alcoólatras. Quero ver a galera trançando as pernas!
O único que não quero ver comendo porcaria é o Baixinho. Esse eu exijo que coma só uma saladinha básica. Ele anda meio gordo, sabe...
E nada de cantarolar “Che viva la bella polenta”, quero ouvir “I don´t wanna be buried, in a pat cemetary” dos Ramones. Vai ser melhor que o do Nono!
Graças a Deus já faz um bom tempo que eu não velo ninguém da minha família. Hoje, perto dos 40 anos, eu faria parte da turma que passa a madrugada chorando o morto. E ainda teria assegurado uma das alças do caixão. Não sei se eu tenho mais saco para isso...
Ainda mais nesses velórios modernos, onde impera o silêncio respeitoso. Bom mesmo foi o velório do Nono!
A galera comia e se divertia! Entre um choro e outro os “hómi” falavam de “futebor” e “mulherada” enquanto as “patroa” colocavam as fofocas familiares em dia.
Definitivamente... Já não se fazem mais velórios como antigamente...

“ONDE ESTÃO AS BATATINHAS DE CASAMENTO?”

Dias atrás, meu grande amigo Sérgio Nardini se casou. Provavelmente tenha sido um dos últimos, senão o último, de meu círculo de amigos/irmãos a contrair matrimônio “tudo nos conformes”, como diria minha avó Tiana.
Foi um casamento com direito a tudo: véu, grinalda, daminha, marcha nupcial e uma recepção para padrinhos, parentes e “afins”. Só faltou o arroz na porta da igreja, o que se justifica por vivermos dias “politicamente corretos” e ser esta uma prática um tanto quanto desapropriada com tanta fome no mundo.
Em desacordo com o que penso a respeito desse rito de passagem, tenho que “dar meu braço a torcer” já que a cerimônia me emocionou bastante, levando-me, confesso, às lágrimas em determinados momentos. Os motivos não vêm ao caso agora, mas para não dizer que estou querendo criar mistério, posso expôr que minha filha foi uma das daminhas e, claro, acho que ela estava a coisa mais linda do mundo.
Tudo estava perfeito! Ou não estava?
Há muito não entrava numa igreja para assistir uma cerimônia de casamento! Meus amigos se casaram há tanto tempo que hoje, a maioria, já está divorciada.
Mesmo quando toda a minha geração chegou às vias de fato no que tange a união conjugal estável, já havia notado que as coisas não eram mais as mesmas.
Cerimônia de casamento deixou de ser “cerimônia de casamento” para se transformar em um espetáculo teatral cheio de formalidades nas quais amigos agem de maneira como se todos ali fossem estranhos, pelo simples fato de estarem em público e serem o centro provisório das atenções. Nada ali é autêntico! Qualquer deslize que seja, um espirro, por exemplo, é motivo para estragar a filmagem. Tudo é milimetricamente calculado e, pasmem, até ensaio o casamento já tem!
O comportamento protocolar só é quebrado pelos olhares cúmplices de quem está na berlinda, pronto para virar “Videocassetada do Faustão”.
Mas quem sou eu para questionar o rito se eu mesmo participei de um: o meu. A diferença é que, apesar de me render ao protocolo para não expôr minha esposa ao ridículo, procurei agir como se estivesse em minha casa. Só não arrotei alto porque igreja dá eco. E o fato de agir dessa forma foi motivo para algum “falatório” depois. Semanas mais tarde fiquei sabendo que duas velhotas comentavam ainda na igreja que minha esposa chorava por desgosto de ver um marido tão relaxado que nem terno usou! Como se terno legitimasse ainda mais a união...
Tá certo que, apesar de não levar aquela coisa a sério, chorei de emoção e não dei esculacho em momento algum, mas tenho que fazer uma confissão: sem que ninguém soubesse eu tirei minha “casquinha”.
Se você procurar pelo livro de registros da igreja na data de 10 de dezembro de 1994 e se atentar apenas às assinaturas, verá que Hellen Alves de Lima se casou as 18:00 horas com o Sr. Ozzy Osbourne.
E já que a hora de confessar, peço desculpas aos amigos os quais apadrinhei, pois se vocês fizerem o mesmo tipo de pesquisa verão que dentre seus padrinhos encontrarão personalidades como Bruce Dickinson, Marylin Manson, Jimmy Hendrix...
Mas se cerimônia nunca teve graça nenhuma, o pior mesmo são as festas de hoje em dia! Estas sim perderam o encanto!
Hoje as festas, quando há festa, são tão boas, tão elaboradas, tão cheias de coisas que sinto falta da simplicidade das antigas festas de fundo de quintal...
Festa hoje tem DJ, luz e som profissionais, garçons, buffet chiquérrimo com comidas de restaurante e whisky importado.
Mas “pêra aí!” Ta faltando alguma coisa! Pára tudo!
Onde estão as batatinhas de casamento?!
Sim, aqueles tubérculos em miniatura cozidas com casca e tudo que passam as 24 horas que antecedem a comilança mergulhada no vinagre, cebola picada, salsa e sal!
Casamento sem batatinha não devia ser abalizado!
E mais!!!
Onde foram parar os lanchinhos de pão amanhecido com carne moída de segunda?
Os picles no palitinho de dente?
As “tia gorda” que serviam espuma de chope em jarras de plástico em formato de abacaxi?
A barquinha de maionese?
A coxinha, o risóles, a empada?
O canudinho de coco ralado com açúcar derretido?
A Tubaína sem gelo no copo de plástico?
O bolo de um andar só que tinha uns 10 metros quadrados?
Cadê tudo isso?
Pelo amor de Deus, cadê as batatinhas??????
Hoje em dia é tudo muito chic, tudo self service, tudo com certificado de procedência. Ninguém mais tem caganeira depois da festa... Assim não dá...
É um pãozinho de ovos daqui, um bisqui de gergelim dali, patê de berinjela com passas, pudim salgado, salada de palmito, batata sem casca cortada ao meio e flambada na manteiga (que pecado!), maionese com maçã e abacaxi, arroz com passas e ervilhas, fricasset de frango (isso mesmo, fricasset!), ravióli aos quatro queijos... Tenha santa paciência...
Até medalhão de filé Mignone ao molho de cogumelos eu já comi! Pode?
Isso é uma falta de respeito!
Pra começar, não é mais “festa de casamento”... É recepção para os convidados...
Não existe mais a figura do “porteiro”, agora é Hostess..
Na entrada você tem que conferir se seu nome está na lista, não tem mais aquela de “chegar chegando”, dizendo “oi” pra todo mundo... O efeito mais cruel que isso causa é a extinção prematura da lendária figura do “Bicão”. Mas fala a verdade, festa sem “Bicão” é festa?
Tive um amigo, já falecido, que morava perto da casa de minha avó, que por sua vez morava de frente a uma igreja que costumava locar seu salão para festas de casamento. Esse cara, o “Dú Bóbrinha”, ia a todos os casamentos que haviam por lá! Chegava ao sábado, lá pelas tantas ele parava de jogar bola porque tinha que tomar banho pra ir à festa. E o cara-de-pau ia sozinho, rangava e depois voltava pra contar como havia sido... Enfim, um “Bicão” profissional! Isso aos 12 anos de idade!
Mas voltando às batatinhas...
Esses casamentos modernos, ou casório sem batatinha, estão cada vez mais sem graça. Não tem diversão autêntica, não tem mais aquele “tchan” que as festas de outrora possuíam.
Ninguém mais passa a semana falando das baixarias que aconteceram na festa! Essas festas de agora não tem baixaria! É tudo muito britânico...
Não consigo me esquecer da baranga de azul que colou sua imagem em minha retina!
Não me lembro quem era, quando foi, no casamento de quem foi, só sei que foi, muito engraçado...
A cena é a seguinte:
Fim de festa, mais da metade das pessoas de bem já haviam deixado o recinto. Restavam só os bêbados, os parentes muito próximos, os que estavam interessados em levar um pratinho com petiscos para aquela “Tia” que não pode ir (conversa..) e os sem-carona (que era o meu caso). Nem os noivos estavam mais lá! Estamos falando de uma hora pós-corte do bolo.
Quem ficou tava mamado, cansado e com sono. O som ainda rolava na vitrola. Alguns dançavam sem sair do lugar e outros só marcavam o compasso com a ponta dos pés, mas no meio do salão tinha “ela”, a véia gorda! Nem tão velha, nem tão gorda, uma baranga padrão.
Vestido cor de azul calcinha colado no corpo para aparecer as formas (ou deformas?) que dava a impressão de que ia se rasgar a qualquer momento pelo excesso de tecido adiposo, maquiagem borrada pelo suor, as duas mãos para o alto e em uma delas um par de sandálias (que provavelmente lhe deixaram bolhas no calcanhar), cabelos despenteados e deformados pelo excesso de laquê Emy que lhe endureciam a franja, a lazarenta cantava com paixão um sucesso da época:
- “Vem comigo no meu barco azul... Vou te levar... Pra navegar... Nos rios da Babilônia...”.
Era uma versão piorada da Perla, uma paraguaia que ao contrario de suas conterrâneas da época, não trabalhava em zona e cantava bem.
Era o fundo do posso... Aquela baranga era fim de carreira...
Era provavelmente uma baranga mal comida que, se casada, devia estar ou desacompanhada ou à espera do marido que devia estar abraçado ao barril de chope.
E a gorda cantava e ria ao mesmo tempo de tão manguaçada que estava.
Eu não devia ter mais do que dez anos e me lembro de ter imaginado minha mãe no lugar dela... E depois eu dando uma surra de gato morto nela...
As “recepções” de hoje em dia não têm mais essas barangas cantantes. Não têm mais o discurso do sogro mamado que não se conforma com o fato de que aquele rapaz de terno ali do lado vai passara piaba no “docinho de leite” que ele criou com tanta educação. Na mente do sogro logrado, a noite de núpcias é sempre a primeira vez “dela”.
Onde estão aqueles pais inconformados que ficaram sabendo que um “moleque” acabara de bolinar sua filha num canto escuro do jardim? Invariavelmente ele iria tomar satisfação com o pai do bolinador e a coisa descambava pra discussão com a intervenção das suas respectivas esposas.
E as esposas que sentiam cheiro de biscate no ar? Biscates essas que, lógico, jogavam charme só para o seu marido. E lá ia a corna tomar “sastifação” com a piranha. E tome discussão! Legal é quando ela partia pra porrada, com direito a unhadas, puxões de cabelos, tapas na cara... Briga de mulher é o que há! Muito engraçado!
E, via de regra, termina com as duas jogando uma na cara da outra, os podres da vida inteira! Elas sabem tudo sobre a vida da oponente! Desde com quem elas haviam perdido a virgindade até com quem elas já haviam dormido, que doença venérea já pegaram...
Uma verdadeira putaria! E festa sem putaria definitivamente não é festa...
Fui a uma festa quando pequeno em que presenciei uma verdadeira disputa pela irmã mais nova da noiva. Era casamento de pobre (os que mais gosto), e em casório de desprovido a festa é na casa da noiva. Era uma festa perfeita, com batatinha e tudo! E muito aperto, muito mesmo! Quem não estava no quintal ou na rua estava pingando suor dentro da casa. Banheiro só com senha.
Fiquei postado estrategicamente no corredor de acesso a cozinha por onde, obrigatoriamente, todas as bandejas de comes e bebes teriam de passar. E o lugar era concorrido. Quem saísse não voltava mais. O negócio era ficar por lá um tempo, agüentar o calor, encher a pança e sair na rua para respirar ar puro já que a pior parte era ficar bem próximo a entrada do banheiro.
Em nome da gula, suportei sozinho aquele calvário e só depois de satisfeito, procurei o ar puro da calçada. Fiquei encostado numa Variant (que naquele tempo era carro) só observando o movimento e me deparei com uma cena bem peculiar: três rapazes brigando pelo “amor” de uma só donzela.
A donzela era a irmã caçula da noiva e de “donzela” não tinha nem o apelido. Propositalmente ela estava “vestida para matar”, Usava um vestido vermelho candomblé decotado até o umbigo com a barra da saia chegando no máximo até os joelhos. Até eu queria ela pra mim... Não fosse ela pelo menos uns dez anos mais velha do que eu...
Fui obrigado a acompanhar o desenrolar da trama que culminou com o mais feio deles levando a moçinha para uma construção próxima a casa em questão e que num futuro próximo seria um supermercado. Cada vez que entro nele lembro da moça de vermelho.
Voltei rapidamente pra muvuca, reabasteci meu copo de Tubaína, enchi um outro com bolinhas de queijo e voltei para o meu posto de observação avançado. Precisava ver o final da história.
Alguns minutos depois a donzela sai sozinha da construção toda descabelada e arrumando o vestido (o donzelo saiu depois só pra disfarçar o indisfarçável). De passagem, ela me mediu de cima a baixo como quem pensa: - “Será que esse pirralho percebeu o que aconteceu aqui?”.
Não só percebi como tive tempo de vê-la voltar para a construção, dessa vez com o rapaz da camisa marrom cocô. Eu, só comi mesmo as batatinhas...
Sinto falta daquelas festanças. Dos casórios, como eram docemente chamadas essas ocasiões. A graça dessas festas estava justamente no des-compromisso.
Talvez porque naquele tempo não havia ainda essa cobrança velada que nos obriga a nos portarmos como pseudo-celebridades em ocasiões onde a autenticidade seria o mais indicado. Nas fotos de antigamente não há registro das barbáries que presenciávamos ao vivo. Registros em vídeo eram raridades!
Nas fotos só vemos as pessoas sorrindo no começo e no meio da festa. O final, que é a melhor parte, não aparece em lugar nenhum. A hora dos bebaças é realmente o que importava! O que acontecia nas duas últimas horas é o que determinava o que ia ser comentado durante a semana e esquecido na semana seguinte. Hoje, qualquer deslize vai estar gravado para a posteridade e com um pouco de azar disponível na internet para o “mundo” todo ver.
Doces recordações que se resumiam materialmente a um pedaço de gravata que os convidados compravam para ajudar nas despesas da Lua de Mel.
Mas isso ainda não mudou por completo. Até comprei um pedaço da gravata do Sérjão!
Outras coisas continuam iguais: o cunhado, normalmente o responsável pelo leilão da gravata, continua bêbado e puxando o noivo como um cachorrinho salão afora, o convidado rapa as moedas da carteira, pois já deve ter gasto bastante com o presente, e a noiva continua com cara de tacho e não fazendo questão nenhuma de fazer de conta que está gostando da brincadeira. Se bem que dá pra tirar uma graninha ali...
Eu não passei por esse constrangimento com fins lucrativos, pois como já disse, não usei terno tampouco gravata, e minha festa se resumiu a algumas taças (de plástico) de champagne Peterlongo com um bolo de três andares, e só para os padrinhos. Nem teve batatinha! Mas aí a culpa foi minha que não quis festinha. Se eu já não gostava da idéia do casamento formalizado imagine com festa e tudo!
Mesmo assim a minha pequena casa de cinco cômodos ficou lotada de gente! Também, cinco cômodos...
O legal foi ver a padrinhada sofrendo dentro de um terno! Era início de dezembro e o calor tava de rachar mamona! Faltou cerveja pra cuecada se refrescar...
Sobrou muito bolo e champagne, que foram acabar depois de umas duas semanas...
Mas faltou a batatinha...
E a véia gorda dançando no salão...
O discurso do meu sogro...
O “Bicão”...
E a batatinha... Ahhhh, a batatinha...